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Mostrando postagens de julho, 2020

Sobre fusos e fé

A ironia é que a distância extrema favorece nosso contato íntimo - questão de fuso. A geografia que desempenha o papel do perfeito eclipse solar. Tanta crença em seu ateísmo... Enquanto eu, cética sobre todas as crendices que já habitaram em mim. Questão de fé. Conheci-o no dia do fim do mundo. Ele, celebrando a vida. Eu, desejando a morte. A improbabilidade de todas as congruências... A inevitabilidade de todos os vícios. Preciso ouvi-lo. Seus detalhes mais íntimos despidos languidamente... Seus temores lacrimejados em palavras de poética dor... Os lampejos da sua humanidade remendados no espectro da minha estranheza. Momentos raros de leveza humana ao ver o mundo sob sua óptica. Devaneios de uma alma errante que tomo como minha a cada apalavra sua que leio. Alimento-me de seus sonhos mortos. E é isso que está me mantendo viva... Sabathela.

Sobre Sonhos e Pássaros

A canção falava de sonhos e pássaros. Mas ela nunca decorara a letra. Ou talvez já, na tenra infância... Agora, sua mente só rememorava lista de afazeres, datas de pagamentos, senhas de e-mails profissionais, CPF e RG. Tantos anos decorando classificações taxonômicas em latim, nomes de czares, imperadores e bacias hidrográficas, para que se tornasse a exímia adulta que, rapidamente, digita a senha do cartão de crédito para suas compras compulsivas na Internet. Maturidade e eficiência. Ele sabia a música de cor. E supondo saber o quanto aquela canção lhe era prazerosa, ele a cantava sempre que pretendia simular uma atitude carinhosa e inadequadamente paternal. Que tolo. Aquela canção era uma vaga lembrança de um abuso. Abuso este que ele só reafirmou. Ele tinha boa memória. Precavido que era, não colocava o telefone delas na agenda do celular - nunca duvide da perícia forense de uma mulher traída. Então, em arquivos digitalizados, guardava sua lista de afazeres, datas de pagamentos, s...

Prostituída

Prostituía-se desde que se tornara socialmente adulta. Provavelmente, desde tempos bem anteriores, porém, na época, não tinha maturidade para discernir seu papel nas situações. Atuações... Descobriu que poderia viver com isso. Descobriu que a maior liberdade que viria a ter na vida era compreender o que queriam dela, por qual preço, e se estava disposta a vender. Aprender a dizer não foi a tarefa mais difícil que teve que passar - e a aguentar as consequências por isto. Descobriu que nem sempre o preço do não era mais barato que o da submissão, ainda que a longo prazo, a memória e a consciência - inimigas supremas da idade - dobravam o valor pago por cada subjugo. Descobriu que poderia divertir-se com a obediência fingida, e a expressar sua rebeldia em textos que ninguém jamais leria. Descobriu que nunca poderia dirigir, casar, ter filhos, aparentar normalidade... Tudo o que esperavam dela... Tudo o que ela exaustivamente forçou-se a desejar... Amargamente, tentou realizar... E fr...

Réquiem

Há um demônio aqui. Ouço ele arranhar a parede. Esmurrando, cavando, procurando... Sua língua perscrutando com sede. Sinto ele me consumir... O sopro em meu ouvido dizendo como agir. Tudo ao redor que ele só faz denegrir. Uma tragicomédia que me faz rir. Ouço seus gritos, seu canto. Mutilações impiedosas em meu ouvido. Saudade de algo que, talvez, tenha partido... Resquícios da minha humanidade em pranto. Cheiro de enxofre, gosto de terra. Dentes e lábios embebidos em sangue. Vida aprisionada em cratera, Coração exangue... Há um demônio aqui a me possuir. A todo momento o posso sentir... Autocontrole prestes a ruir. Deixe-me partir... Eu que o prendi aqui? Seu canto clama por socorro... Torturo-o com minha animosidade. Obrigo-o a ver a dor da sociedade. Pobre anjo caído... Achou que perturbaria a minha calma... Mas o que ele não poderia ter inferido É o vazio ensurdecedor do que antes fora uma alma. Há um demônio aqui, eu o prendi. Não me deixe sozin...

Notas Soltas

Eu sempre quis saber. Conhecer, provar, ver, entender. Manejar habilmente o violino, sentir a nota de baunilha no Merlot, identificar o traço de Caravaggio, entender a alma e os segredos de Yeats, compreender os aspectos filosóficos e científicos da nossa existência, aprender a apreciar a companhia humana... Ser convencida de que meu ceticismo nada mais é que um reducionismo tolo e arrogante. Voltar a acreditar... Acreditar com o respaldo do conhecimento, e não com a desculpa da ignorância. Busquei. Li. Vi. Estudei. Tentei. Falhei. Forcei. Do que me adiantou? Trocaria tudo o que sei por uma dose, pequena que fosse, da indiferença anestesiante deles... Não queria saber o que sei. Não queria ter visto o que vi. Não sou capaz de ir além... E agora? Não tenho como retornar...Não tenho como voltar a ser o que era. Não quero saber mais. Não quero ir além. Estou suspensa no espaço. Suspensa no tempo. Perdida entre épocas... Seres... Coisas... Estou flutuando invisível. Não sei mais...

Camadas

Sorrisos e sarcasmos... Arranco. Introversão, receio, insegurança... Dispo. Pavor. Espero... Permanecerá lá. Fujo, escondo, nego, relevo... Ódio, culpa, vergonha... Mais um pouco... Decepção... Penetro. Lascívia, degradação, solidão, confusão... Ignoro. Um corredor escuro... Caminho. Horas, dias, anos... Escuridão. Frio. Vazio. Não há nada lá. Nada. Ninguém. Choro... Sou desperta pelo medo. Sorrisos e sarcasmos... Infeliz. Segura. Sabathela.

Medo

Eu era uma menina. Medrosa. Ah... Sempre o medo. Medo de atrair olhares e, assim, ter a minha natureza exposta. Ser despida languidamente da minha roupagem de indiferença, independência e segurança... Medo que descubram que sou uma fraude. Que não sei ser humana, exceto pelos mais rasos traquejos de alguns ritos sociais penosamente mimetizados. Medo de encarar a rejeição daqueles que já, de alguma forma, enxergaram, mesmo em suas cegueiras, minha escuridão. Medo de ver em seus olhos os meus terrores noturnos e os uivos dos demônios que habitam em mim; visões e sons que suporto somente nas madrugadas solitárias, quando ninguém mais pode presenciá-los... Uma alma cansada... Imolada... Esfolada... Cada resquício de sentimento arrancado a marteladas. Martelos de luz. E, agora, sobrou somente o medo. Eu sou uma mulher. Medrosa. Sabathela.

Ao fundo

Estou me afogando... Simplesmente não consigo ser funcional. É possível ser soterrada pelos próprios pensamentos? Eu sou. E é na escuridão sufocante que eles me lançam que eu posso ser eu mesma. Somente. A luz do dia me cega. As pessoas me drenam. Quão trágico é dar-se conta que o melhor que terá na vida é, de alguma forma, gastar o máximo de tempo que lhe resta se escondendo? Escondendo-se na obscuridade do espectro inumano que se descobriu ser. Não quero sair. Não quero ninguém. Quero trancar a porta. Não quero sair. Não quero enxergar. Não quero ouvir. Não quero sair. Estou me afogando... Se escapar para a superfície, a morte será muito pior... Quero afundar. Quero ver a luz desaparecer. E, no medo de me perder, desaparecer... Estou me afogando. Sabathela.

Névoa

Espectro que ofusca... Atrai. Assusta. Preenche. Sufoca. Estranha. Bonita. Volátil. Atrapalha o curso normal dos carros... Dos bichos... Dos livres... Da vida. Bonita de ver - à distância. Angustiante, por perto. Um espectro errante. Bruma inebriante... Claustrofóbica. Apreciada, ao surgir. Festejada ao desaparecer... E, assim, vou evanescendo... Cada dia menos espessa... Cada dia menos eu. Sabathela.