A canção falava de sonhos e pássaros. Mas ela nunca decorara a letra. Ou talvez já, na tenra infância... Agora, sua mente só rememorava lista de afazeres, datas de pagamentos, senhas de e-mails profissionais, CPF e RG. Tantos anos decorando classificações taxonômicas em latim, nomes de czares, imperadores e bacias hidrográficas, para que se tornasse a exímia adulta que, rapidamente, digita a senha do cartão de crédito para suas compras compulsivas na Internet. Maturidade e eficiência.
Ele sabia a música de cor. E supondo saber o quanto aquela canção lhe era prazerosa, ele a cantava sempre que pretendia simular uma atitude carinhosa e inadequadamente paternal. Que tolo. Aquela canção era uma vaga lembrança de um abuso. Abuso este que ele só reafirmou. Ele tinha boa memória. Precavido que era, não colocava o telefone delas na agenda do celular - nunca duvide da perícia forense de uma mulher traída. Então, em arquivos digitalizados, guardava sua lista de afazeres, datas de pagamentos, senhas de e-mails profissionais, CPF e RG; para que, assim, sua mente pudesse se ocupar dos telefones e da canção.
Não era ciúmes. Nunca foi.
Não era posse. Talvez possessão.
Humilhação.
Decepção.
Subjugos.
Abusos.
Traições.
Agressões.
A ordem gradativa dos fatos é harmônica. Uma ressonância de erros que rompe as camadas de autoconfiança sistematicamente construídas em pouco mais de duas décadas.
Que ironia. Ela que sempre fora brilhante em identificar padrões, de alguma forma, permaneceu ignorante àqueles.
O que sobra quando o mais essencial dos alicerces é completamente desintegrado?
Como diria um inútil coach - claro, que com uma retórica embasada em jargões bem mais motivadores -: resta-lhe reconstruir...
Quantas vezes achou que as notas de desespero das relações humanas fossem meras liberdades poéticas dos escritores excêntricos que pretendiam chocar o leitor?
Negou-se a morrer. Um milhão de vezes.
Reconstruiu.
Mas o que nasceu estava longe de ser o que era.
Não havia alicerce, pedras ou tijolos, lapidação...
Era areia, lodo e musgo. Camadas de ar sufocante, mofo impregnante. Vida rastejante em pântano encoberto por um grosso tapete florido. Fora o melhor que conseguiu fazer.
Mas isso é segredo.
Eles não sabem.
Ele não sabe.
E, hoje, ele decidiu cantar a canção.
Ela ouviu.
Imersa em seu mundo de tinta preta.
A canção falava de sonhos e pássaros.
Ela chorou. Riu. Assobiou o resto.
Ele, satisfeito, acreditou ter apagado seus rastros.
Ela preparou o jantar.
Despejou um pouco do limbo da sua alma no ensopado.
Velas à mesa. Flertes e nudez.
Compreensão: ela o envenenou.
Pavor.
Mas ele teve tempo... Pode rever sua mãe chorando na chuva após a briga com o pai. A morte da tia. O desprezo da filha. Pode relembrar suas razões e os subterfúgios heroicos de cada erro.
Não restava dúvida: era uma vítima. Morreu em paz.
Ela não esperaria diferente.
Não buscava arrependimento.
Queria apenas uma carcaça a enfeitar o seu lodaçal.
Assoviava.
Sonhos e pássaros.
Sabathela.
Ele sabia a música de cor. E supondo saber o quanto aquela canção lhe era prazerosa, ele a cantava sempre que pretendia simular uma atitude carinhosa e inadequadamente paternal. Que tolo. Aquela canção era uma vaga lembrança de um abuso. Abuso este que ele só reafirmou. Ele tinha boa memória. Precavido que era, não colocava o telefone delas na agenda do celular - nunca duvide da perícia forense de uma mulher traída. Então, em arquivos digitalizados, guardava sua lista de afazeres, datas de pagamentos, senhas de e-mails profissionais, CPF e RG; para que, assim, sua mente pudesse se ocupar dos telefones e da canção.
Não era ciúmes. Nunca foi.
Não era posse. Talvez possessão.
Humilhação.
Decepção.
Subjugos.
Abusos.
Traições.
Agressões.
A ordem gradativa dos fatos é harmônica. Uma ressonância de erros que rompe as camadas de autoconfiança sistematicamente construídas em pouco mais de duas décadas.
Que ironia. Ela que sempre fora brilhante em identificar padrões, de alguma forma, permaneceu ignorante àqueles.
O que sobra quando o mais essencial dos alicerces é completamente desintegrado?
Como diria um inútil coach - claro, que com uma retórica embasada em jargões bem mais motivadores -: resta-lhe reconstruir...
Quantas vezes achou que as notas de desespero das relações humanas fossem meras liberdades poéticas dos escritores excêntricos que pretendiam chocar o leitor?
Negou-se a morrer. Um milhão de vezes.
Reconstruiu.
Mas o que nasceu estava longe de ser o que era.
Não havia alicerce, pedras ou tijolos, lapidação...
Era areia, lodo e musgo. Camadas de ar sufocante, mofo impregnante. Vida rastejante em pântano encoberto por um grosso tapete florido. Fora o melhor que conseguiu fazer.
Mas isso é segredo.
Eles não sabem.
Ele não sabe.
E, hoje, ele decidiu cantar a canção.
Ela ouviu.
Imersa em seu mundo de tinta preta.
A canção falava de sonhos e pássaros.
Ela chorou. Riu. Assobiou o resto.
Ele, satisfeito, acreditou ter apagado seus rastros.
Ela preparou o jantar.
Despejou um pouco do limbo da sua alma no ensopado.
Velas à mesa. Flertes e nudez.
Compreensão: ela o envenenou.
Pavor.
Mas ele teve tempo... Pode rever sua mãe chorando na chuva após a briga com o pai. A morte da tia. O desprezo da filha. Pode relembrar suas razões e os subterfúgios heroicos de cada erro.
Não restava dúvida: era uma vítima. Morreu em paz.
Ela não esperaria diferente.
Não buscava arrependimento.
Queria apenas uma carcaça a enfeitar o seu lodaçal.
Assoviava.
Sonhos e pássaros.
Sabathela.
Comentários
Postar um comentário