A ironia é que a distância extrema favorece nosso contato íntimo - questão de fuso. A geografia que desempenha o papel do perfeito eclipse solar. Tanta crença em seu ateísmo... Enquanto eu, cética sobre todas as crendices que já habitaram em mim. Questão de fé. Conheci-o no dia do fim do mundo. Ele, celebrando a vida. Eu, desejando a morte. A improbabilidade de todas as congruências... A inevitabilidade de todos os vícios. Preciso ouvi-lo. Seus detalhes mais íntimos despidos languidamente... Seus temores lacrimejados em palavras de poética dor... Os lampejos da sua humanidade remendados no espectro da minha estranheza. Momentos raros de leveza humana ao ver o mundo sob sua óptica. Devaneios de uma alma errante que tomo como minha a cada apalavra sua que leio. Alimento-me de seus sonhos mortos. E é isso que está me mantendo viva... Sabathela.
A canção falava de sonhos e pássaros. Mas ela nunca decorara a letra. Ou talvez já, na tenra infância... Agora, sua mente só rememorava lista de afazeres, datas de pagamentos, senhas de e-mails profissionais, CPF e RG. Tantos anos decorando classificações taxonômicas em latim, nomes de czares, imperadores e bacias hidrográficas, para que se tornasse a exímia adulta que, rapidamente, digita a senha do cartão de crédito para suas compras compulsivas na Internet. Maturidade e eficiência. Ele sabia a música de cor. E supondo saber o quanto aquela canção lhe era prazerosa, ele a cantava sempre que pretendia simular uma atitude carinhosa e inadequadamente paternal. Que tolo. Aquela canção era uma vaga lembrança de um abuso. Abuso este que ele só reafirmou. Ele tinha boa memória. Precavido que era, não colocava o telefone delas na agenda do celular - nunca duvide da perícia forense de uma mulher traída. Então, em arquivos digitalizados, guardava sua lista de afazeres, datas de pagamentos, s...