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Réquiem

Há um demônio aqui.
Ouço ele arranhar a parede.
Esmurrando, cavando, procurando...
Sua língua perscrutando com sede.

Sinto ele me consumir...
O sopro em meu ouvido dizendo como agir.
Tudo ao redor que ele só faz denegrir.
Uma tragicomédia que me faz rir.

Ouço seus gritos, seu canto.
Mutilações impiedosas em meu ouvido.
Saudade de algo que, talvez, tenha partido...
Resquícios da minha humanidade em pranto.

Cheiro de enxofre, gosto de terra.
Dentes e lábios embebidos em sangue.
Vida aprisionada em cratera,
Coração exangue...

Há um demônio aqui a me possuir.
A todo momento o posso sentir...
Autocontrole prestes a ruir.
Deixe-me partir...

Eu que o prendi aqui?
Seu canto clama por socorro...
Torturo-o com minha animosidade.
Obrigo-o a ver a dor da sociedade.

Pobre anjo caído...
Achou que perturbaria a minha calma...
Mas o que ele não poderia ter inferido
É o vazio ensurdecedor do que antes fora uma alma.

Há um demônio aqui, eu o prendi.
Não me deixe sozinha...
Olhe-me agora: entrego a ti!
Tome essa existência que já foi minha!

Bem-vindo à desgraça da humanidade.
Cair aqui foi sua fatalidade.
Não anseie por piedade.
Aqui conhecerá a verdadeira perversidade...

Brindemos a essa vida sempiterna!
Morramos nesse abraço terno.
Reencarnemos em condenação eterna.
Estamos presos no inferno...

Sabathela.

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Ao fundo

Estou me afogando... Simplesmente não consigo ser funcional. É possível ser soterrada pelos próprios pensamentos? Eu sou. E é na escuridão sufocante que eles me lançam que eu posso ser eu mesma. Somente. A luz do dia me cega. As pessoas me drenam. Quão trágico é dar-se conta que o melhor que terá na vida é, de alguma forma, gastar o máximo de tempo que lhe resta se escondendo? Escondendo-se na obscuridade do espectro inumano que se descobriu ser. Não quero sair. Não quero ninguém. Quero trancar a porta. Não quero sair. Não quero enxergar. Não quero ouvir. Não quero sair. Estou me afogando... Se escapar para a superfície, a morte será muito pior... Quero afundar. Quero ver a luz desaparecer. E, no medo de me perder, desaparecer... Estou me afogando. Sabathela.