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Prostituída

Prostituía-se desde que se tornara socialmente adulta. Provavelmente, desde tempos bem anteriores, porém, na época, não tinha maturidade para discernir seu papel nas situações. Atuações...
Descobriu que poderia viver com isso.
Descobriu que a maior liberdade que viria a ter na vida era compreender o que queriam dela, por qual preço, e se estava disposta a vender. Aprender a dizer não foi a tarefa mais difícil que teve que passar - e a aguentar as consequências por isto.
Descobriu que nem sempre o preço do não era mais barato que o da submissão, ainda que a longo prazo, a memória e a consciência - inimigas supremas da idade - dobravam o valor pago por cada subjugo.
Descobriu que poderia divertir-se com a obediência fingida, e a expressar sua rebeldia em textos que ninguém jamais leria.
Descobriu que nunca poderia dirigir, casar, ter filhos, aparentar normalidade... Tudo o que esperavam dela... Tudo o que ela exaustivamente forçou-se a desejar... Amargamente, tentou realizar... E fracassou. Fracassa. Todo dia.
Sofreu nas primeiras vezes. Doeu. Sentiu-se violada. Invadida. Destruída.
Sobreviveu.
Aprendeu a valorizar o seu desvalor. Aumentou o preço. Fingiu satisfação - eles adoram. Simulou submissão - eles adoram ainda mais.
Descobriu que podia se fragmentar... Desintegrar-se em pedaços, resguardando uma pequeníssima porção de sua verdade em seu esconderijo de gárgulas e histórias.
Deixou que usassem o resto. Penetrassem. Invadissem. Subjugassem. Porém, determinou o preço. Com o dinheiro, pagou os escapismos diários necessários. Escapismos para afugentar os temores da pequena porção de verdade. Escapismos para fortalecer as máscaras do resto.
Prostituía-se desde que se tornara socialmente adulta.
Descobriu que morreria por isso.

Sabathela.



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Ao fundo

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